Tipos de feminicídio
O feminicídio não é um ato único, nem ocorre sempre da mesma forma. Ele se manifesta em diferentes contextos, mas carrega a mesma raiz: o assassinato de mulheres motivado pelo ódio, desprezo, controle ou discriminação de gênero. Compreender os tipos de feminicídio é fundamental para romper a falsa ideia de que essas mortes são casos isolados ou tragédias inevitáveis. Cada tipo revela uma face da violência estrutural que insiste em negar às mulheres o direito básico de existir com dignidade.
No Brasil, a Lei nº 13.104/2015 reconhece o feminicídio como circunstância qualificadora do homicídio quando envolve violência doméstica e familiar ou menosprezo e discriminação à condição de mulher. A partir disso, é possível identificar diferentes formas em que esse crime se apresenta na realidade.
O feminicídio íntimo é o mais recorrente e, também, o mais silencioso. Ele acontece quando a mulher é assassinada por alguém com quem mantém ou manteve uma relação afetiva ou de convivência, como marido, companheiro, namorado ou ex-parceiro. Esse tipo de feminicídio costuma ser precedido por um longo histórico de violência psicológica, física, sexual ou patrimonial. A morte, nesse contexto, não surge de repente — ela é anunciada por ameaças, controle excessivo, isolamento social e medo constante. O lar, que deveria ser espaço de proteção, transforma-se em cenário de execução.
O feminicídio não íntimo ocorre quando o agressor não possui vínculo afetivo ou familiar com a vítima. Ele pode acontecer em situações de ataque sexual, sequestro, perseguição ou violência urbana direcionada especificamente à mulher. Embora menos falado, esse tipo também é motivado por misoginia, pois o corpo feminino é escolhido como alvo por representar vulnerabilidade, dominação e objetificação. A ausência de vínculo não diminui a gravidade do ódio envolvido.
Existe também o feminicídio por menosprezo ou discriminação à condição de mulher. Nesse caso, o crime acontece quando a mulher é morta simplesmente por ser mulher, em contextos que evidenciam desprezo, humilhação ou punição simbólica. São casos marcados por extrema crueldade, violência excessiva e desumanização da vítima. O objetivo não é apenas matar, mas apagar a identidade feminina, reafirmando poder e controle.
O feminicídio familiar ocorre fora da relação conjugal, mas dentro do ambiente doméstico ou familiar. Pode ser cometido por pais, irmãos, filhos, tios ou outros parentes. Muitas vezes está associado à tentativa de controle da sexualidade, das escolhas pessoais ou da autonomia da mulher. Esse tipo de feminicídio escancara que a violência de gênero não se limita ao parceiro íntimo, mas pode estar enraizada em estruturas familiares autoritárias e patriarcais.
O feminicídio sexual está diretamente ligado à violência sexual. A mulher é assassinada durante ou após um estupro, como forma de silenciamento, punição ou descarte. Esse tipo revela de forma brutal a objetificação do corpo feminino, tratado como algo que pode ser usado e eliminado. O feminicídio sexual reforça que a violência contra a mulher não é apenas física, mas simbólica, marcada pela negação total de sua humanidade.
Há ainda o feminicídio por conexão, que ocorre quando uma mulher é morta ao tentar proteger outra mulher ou por estar próxima de uma situação de violência de gênero. Mães que defendem filhas, amigas que tentam intervir, mulheres que testemunham agressões e acabam assassinadas. Esse tipo mostra como o ódio contra mulheres transborda e atinge quem rompe o silêncio ou tenta interromper a violência.
O feminicídio institucional, embora menos reconhecido formalmente, também precisa ser nomeado. Ele acontece quando o Estado falha sistematicamente em proteger mulheres em situação de risco, ignorando denúncias, medidas protetivas e pedidos de ajuda. Quando uma mulher é assassinada após procurar repetidas vezes o sistema de justiça e não receber proteção, a omissão também mata. O silêncio institucional é parte do ciclo do feminicídio.
Outro tipo profundamente invisibilizado é o feminicídio de mulheres em situação de vulnerabilidade extrema. Mulheres em situação de rua, dependência química, cárcere, exploração sexual ou migração forçada enfrentam risco elevado de morte violenta. Nesses casos, a sociedade muitas vezes normaliza a violência, como se essas vidas valessem menos. O feminicídio aqui se alimenta do abandono social e do preconceito.
Mulheres negras são desproporcionalmente vítimas de feminicídio no Brasil. Embora o tipo jurídico seja o mesmo, o recorte racial evidencia um feminicídio atravessado pelo racismo estrutural. O corpo da mulher negra é historicamente mais exposto à violência, menos protegido pelo Estado e mais rapidamente culpabilizado. Isso revela que o feminicídio também se intensifica quando gênero e raça se cruzam.
O feminicídio de mulheres com deficiência também precisa ser citado. Muitas vivem em situação de dependência física, emocional ou financeira, o que amplia o controle do agressor e dificulta a denúncia. A violência, nesses casos, pode ser ainda mais silenciosa, pois a vítima encontra barreiras adicionais para buscar ajuda e ser ouvida.
Independentemente do tipo, todos os feminicídios compartilham elementos comuns: a desvalorização da vida feminina, o controle sobre o corpo e as escolhas da mulher e a tentativa de silenciar sua existência. Classificar os tipos de feminicídio não é fragmentar a dor, mas compreender melhor as formas que o ódio assume para poder combatê-lo de maneira mais eficaz.
Quando se ignora essa classificação, corre-se o risco de tratar todas as mortes como iguais, apagando contextos, responsabilidades e falhas estruturais. Nomear os tipos de feminicídio é um ato político, social e humano. É reconhecer que cada mulher assassinada carrega uma história interrompida por uma violência que poderia ter sido evitada.
O feminicídio não começa com a morte. Ele começa com o controle, com a humilhação, com o medo naturalizado, com o silêncio imposto. Entender seus tipos é uma forma de antecipar sinais, fortalecer políticas públicas e salvar vidas. Enquanto a sociedade insistir em minimizar essas violências, os diferentes tipos de feminicídio continuarão se repetindo, mudando apenas os cenários, nunca a dor.
Indicação de leitura complementar
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O material discute os ciclos da violência, a responsabilização social e institucional, além de trazer reflexões fundamentais sobre prevenção, acolhimento e informação como ferramentas de proteção. É uma leitura indicada para quem deseja compreender o feminicídio para além das estatísticas e contribuir para a construção de uma sociedade que valorize e proteja a vida das mulheres.

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